23.11.08

pseudo-ativismo = intelectualismo?

Reações: 
Sabe que já tem um tempo que discorro sobre esse tema, pois é algo que sempre me irrita -- ok, devo confessar que é algo que me irrita desde que caí na real de que a maioria das ações e palavras ativistas são, nada mais, que coisas vazias, contraditórias e sem sentido, que não atingem seu objetivo: revolucionar o mundo. Isso porque são mal utilizadas e mal direcionadas.

Até meus 14 anos eu era uma jovenzinha de classe média alta, que estudava num colégio de boy e ganhava tudo do papai. Maaaaas... enquanto os boyzinhos brigavam por causa do jogo de futebol, eu brigava com professores e coordenadores por melhorias no ensino e na escola. Era uma rebeldezinha (sem causa, talvez) que, segundo muitos colegas de classe, deveria me tornar política (argh!).

Aos 13 comecei a andar de ônibus sozinha pela cidade para praticar esportes, e isso me fez enxergar um mundo muito maior e muito mais problemático além daquele mundinho fechado em que eu vivia. Aos 15 minha vida virou totalmente: passei a estudar em uma escola pública e a conviver com várias realidades. Pegava ônibus e metrô todo dia, andava sozinha pelo centro, via muitas coisas. Comecei a ouvir outros estilos de música (sobretudo Punk -- pasmem! -- e rock nacional anos 80).

Toda essa transformação me fez virar uma revolucionariazinha. Participei de algumas passeatas com os professores durante a greve; tinha pensamentos anarquistas, socialistas e revolucionários -- eu realmente acreditava que poderia mudar o mundo; virei anti-capitalista, anti-eua, anti McDonalds, anti-tudo. Era uma jovem das Diretas já totalmente fora de contexto, mas com muita vontade.

Um dia, próximo às eleições de 2002 para presidência, entrei num chat na internet e comecei a discorrer sobre a responsabilidade e a consciência na hora do voto. E eis que vira um cara e diz: "Vc tem apenas 16 anos, essa é sua primeira eleição. Um dia vc vai cair na real e vai rir do que vc está falando agora. Eu tbm agia como vc na sua idade."

Fiquei bravíssima na hora, claro! Mas não é que aconteceu isso mesmo? Pior: além de rir de mim mesma nessa tentativa frustrada de uma rebelde sem causa, hoje eu me irrito com pessoas que fazem isso. hahahahahaha claro que não me irrito com os adolescentes de 15 ou 16 anos. Pelo menos eles buscam ter algum conteúdo, no meio desse mundo MTV, que também incentiva ativismos vazios para que os jovens que querem se tornar rebeldes sem causa (lembram-se do "Desligue a TV e vá ler um livro"??? Dispensa comentários...). Me irrito com aqueles que já passaram dos 20, dos 30, mas continuam com esses papinho.

Tive a idéia de escrever esse post após ver, não pela primeira vez, nem pela milésima, uma frase pixada em alguns pontos de São Paulo que me irrita demais: "Odeie seu ódio". Tudo bem que apesar de ser impactante a primeira vista e convidar o leitor a uma certa reflexão (talvez profunda, como foi a minha), é totalmente contraditória. Sendo assim, no meu ponto de vista, perde sua essência... E outra: apesar de simples, poucos são os que param para analisar semantica, morfologica, gramatical e epistemologicamente (ou qualquer outra coisa "mente"), seja por falta de tempo, por falta de interesse, por falta de educação de qualidade, portanto será incompreendida pela maioria. E apesar de, de repente, ser uma forma de arte, ou subversão, ou manifestação... ou tudo isso junto, está ajudando a sujar a cidade, portanto contraditório (os que estão no meio dos grafites beleza, porque grafiti é uma expressão artística, mas em forma de pixação em muros e postes sou totalmente contra)...

--> Depois de ter escrito esse post, resolvi pesquisar sobre esse "movimento" e descobri que isso é feito por um artista plástico, webdesignER (que nem eu!) e que o cara faz coisas muito bacanas: veja. Até passei a entender e a aceitar melhor a intencionalidade dessa manifestação e respeito seu ponto de vista, vi opinião de várias pessoas, mas ainda tenho minhas ressalvas e críticas.


Essas e outras frases de impacto me fazem lembrar de uma garota na faculdade que adorava falar sobre Marx. "O Capital" era o único livro que ela citava. Mesmo na aula de Português, sobre blogs (!)... Ela, já com seus 18, 20 anos, ainda naquela fase que eu passei aos 16, em plena época de guerra no Iraque, fazendo discursos nacionalistas, anti-capitalistas e pró-Iraque de boicote aos EUA. Mas aí a contradição: o maço de Marlboro sempre na mão; o celular Motorola na outra; a chave do seu Peugeot novinho no bolso; a chave da cobertura no Morumbi na bolsa, trabalho digitado em um PC com Pentium, Windows, impresso em uma HP. Lembro de alguém dizendo: "vamos fazer que nem o Osama: deixar a barba crescer, viver na caverna e caçar a comida". Agora pergunta: por que ela não vendeu o carro que ela ganhou, pegou o dinheiro e foi distribuir cestas básicas na favela Paraisópolis? Aí vem me citar Marx, aleatoriamente, com o único propósito de parecer ser uma pessoa intelectual? Me poupe...

Dias depois de começar a pensar nesse post, estou eu no metrô (o bom do transporte público é que você vê muitas coisas, caso seja uma pessoa realmente atenta) e vejo um anúncio: "Ajude a salvar o mundo: seja vegetariano". Cára! Como é que alguém pode gastar dinheiro para fazer um anúncio desses no metrô??? Pegasse esse dinheiro e fosse num rodízio encher a pança de carne e cerveja... Alguém já contou para essa pessoa que faz parte da natureza animal que pessoas comam carne? Será que essa pessoa nunca assistiu no Discovery Channel um leão caçando e matando violentamente um animal qualquer para se alimentar? Será que ele pensa que o tigre tem toda aquela força só comendo alface? Até entendo a revolta contra produtores de carne, que criam gado com único propósito de ganhar dinheiro, que matam animais inocentes, produzem mais do que é preciso e jogam fora toneladas de carne todos os dias e todo aquele blábláblá... mas daí fazer campanha no metrô pro povo virar vegetariano já é demais! Gente! O povo não vai entender que esses são os motivos! E se entendessem, aí que não abririam mesmo mão dos churrascos com os amigos na laje, ao som de funk, pagode, Calypso e muita cerveja Bavaria. Porque mesmo que entendam, não têm consciência do impacto provocado por tudo isso. E outra: vegetais também são seres vivos. Vamos deixar de comer vegetais também?

PELOAMORDEDEUS! Chega dessa hipocrisia barata que não leva a lugar algum!

Alou! Oi! Acorda! Vivemos num mundo capitalista (infelizmente, mas é isso aí) e isso não vai mudar. A não ser que um dia todo o dinheiro do mundo deixe de existir e todas as pessoas deixem de lado suas ambições para viverem num mundo de respeito mútuo, igualitário e harmonioso. Lindo!!! Eu adoraria também!!! Mas utópico. A não ser que todos os Bushs do mundo morram, todos os ricos abram mão de suas fortunas e todas as corporações passem a fazer escambo... que não hajam mais relações de poder... Sorry, mas anarquia é utópica em qualquer classe animal.

Acho legal que as pessoas se preocupem com os problemas do mundo e tentem, de alguma forma, fazer a diferença. Confesso até que eu deveria me preocupar mais, apesar de ajudar sempre que posso. Acho que se todo mundo fizer um pouquinho, já vai fazer uma bela diferença. Porém, palavras sem ação são vazias, NÃO produzem efeito. É preciso que as idéias, a vontade e a energia sejam direcionadas para ações reais, que realmente produzam algo útil, mesmo que pequeno. Claro que você não precisa ir no meio do oceano para salvar as baleias, ou entrar na frente de um tanque de guerra (apesar de ter sido sensacional). Comece com coisas simples, separando seu lixo, por exemplo; doando sangue... pagando uma refeição a quem te pede dinheiro, ao invés de dar o dinheiro; doando roupas e objetos para pessoas carentes... etc etc etc.

Mas, por favor, não me venha falar de Marx e depois achar ruim com os flanelinhas no farol, ok?

Como diz seu Lili: "Prefiro ter um filho viado do que um filho pseudo ativista". "Fico puto(a)" mesmooooo!

prontoDESPEJEI! Ufa!

8 comentários:

.ruiva disse...

revoltadinha! HAHAHAHAAHHA

O gerenciado disse...

nossa, muito foda esse post!

Mari Mari disse...

Grandinho também, quase ninguém tem paciência prá ler.... ahuahauahuua

Devo que confessar que dediquei umas 3 horas da minha vida a ele...

Luis Milanese disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luis Milanese disse...

Vivemos num mundo capitalista. Graças a Deus. :D

Mari Mari disse...

Se não fosse isso eu estaria desempregada... eu e todos nós desse blog :-D

erick. disse...

concordo plenamente com o post, CRTL C CRTL V pra um monte de amigos que me enchem o saco com esse pseudo-ativismo.

osó disse...

"AME SEU AMOR"